Ce diaporama a bien été signalé.
Nous utilisons votre profil LinkedIn et vos données d’activité pour vous proposer des publicités personnalisées et pertinentes. Vous pouvez changer vos préférences de publicités à tout moment.

Aula roteiro de documentário

1 536 vues

Publié le

Aula ministrada na disciplina Administração de Produtos Editoriais do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. tudo de caso do curta "Ilha das Flores"

Publié dans : Formation
  • Soyez le premier à commenter

Aula roteiro de documentário

  1. 1. 1 Roteiro de Documentário Estudo de caso – “Ilha das Flores” Prof. Renato Delmanto Outubro 2015
  2. 2. 22 ž  Há uma distinção entre a linguagem do documentário e a linguagem ficcional ž  Mas há duas simplificações a respeito dessa distinção: 1.  Documentário é um produto com a presunção de superioridade moral ou de acesso privilegiado à realidade 2.  Documentário é um objeto ideológico, já que é representação da realidade, não a própria realidade. ž  Não há nada num filme que possa garantir sua autenticidade histórica, pois o documento é sempre resultado de manipulação estética. Documentário
  3. 3. 33 ž  Documentário e ficção constituem regimes discursivos distintos, que são percebidos pelos espectadores. ž  A distinção entre o discurso do documentário e o ficcional decorre de uma dialética que envolve que envolve os três níveis do processo comunicacional: a emissão (a agência produtora), o texto (as marcas discursivas) e a recepção (as expectativas de leitura) ž  O espectador processa o filme como um argumento sobre o real, comportando uma permanente dinâmica de adesão e rejeição, já que não são documentos empilhados, mas construções textuais. Documentário
  4. 4. 44 ž  A denominação “documentarista” estabelece uma ligação com narrativas que recusam a mediação metafórica da ficção e pretendem referir-se diretamente ao mundo histórico ž  A intenção do autor se reflete em marcas textuais, como a lógica informativa – uma estrutura do tipo problema- solução, que demarca toda a organização do material. ž  Outra marca discursiva é a predomínio da palavra falada e a montagem comprobatória. Documentário
  5. 5. 55 ž  Lixo extraordinário - Vik Muniz (2011) https://www.youtube.com/watch?v=ibctyQ9aU5k Documentários
  6. 6. 66 ž  Arquitetos do Poder – Vicente Ferraz e Alessandra Aldé (2010) https://www.youtube.com/watch?v=EoA6zsaR0xo Documentários sobre o lixo
  7. 7. 77 ž  Entreatos – João Moreira Salles (2005) https://www.youtube.com/watch?v=CAa9zGxFXWo Documentários sobre o lixo
  8. 8. 88 Ilha das Flores
  9. 9. 99 ž  O "roteiro" original de foi escrito por Jorge Furtado em dezembro de 1988 e aprovado para produção pela Casa de Cinema de Porto Alegre em janeiro de 1989. ž  Era basicamente um longo texto de locução, antecedido por uma apresentação do assunto e apenas duas frases sobre as imagens do filme: ž  "A câmera mostra exatamente o que o texto diz, da forma mais didática, óbvia e objetiva possível. ž  Quando o texto fala em números eles são mostrados num quadro negro ou em gráficos." Ilha das Flores
  10. 10. 1010 ž  Depois, Furtado escreveu um "roteiro técnico" em forma de tabela, com o detalhamento de 267 planos previstos para o filme, conforme a locução. ž  O roteiro consolidado posteriormente foi incluído no livro “Um astronauta no Chipre”. ž  A produção foi finalizada em maio de 1989. ž  Prêmios: ž  Melhor curta-metragem no Festival de Gramado (1989). ž  Urso de Prata curta-metragem no Festival de Berlim (1990). Ilha das Flores
  11. 11. 1111 ž  Furtado foi um dos primeiros documentaristas que ousou questionar o modelo clássico de documentário no Brasil. ž  Ilha das Flores foi produzido para a Universidade Federal do RS. ž  Era para ser mais um documentário sobre tratamento de lixo. ž  Há dezenas de documentários sobre esse tema: a temática é relevante e de grande impacto, tem apelo social e político, rende imagens fortes. Ilha das Flores
  12. 12. 1212 ž  Furtado satiriza as marcas textuais do modo expositivo de representação, distanciando o espectador, que, a priori, espera uma leitura passiva em relação ao filme. ž  Constrói comentários por meio de associações as mais diversas e sem muito nexo – como a localização geográfica de uma plantação de tomates, as características do ser humano, o que o diferencia do tomate e do porco, etc. ž  No meio dessas associações, percebe-se o tom irônico dos conceitos, demonstrando um pseudodidatismo. Ilha das Flores
  13. 13. 1313 ž  Uma locução em off (ou seja, despersonalizada) faz o papel de detentora do saber, da ciência. ž  O autor usa conceitos “de dicionário” para ajudar a criar uma empatia no público. ž  Furtado usa de forma lúdica termos cotidianos – como ser humano, porco, tomate, perfume, flores. ž  Mas o ponto de vista crítico do autor vai sendo notado aos poucos por meio dessas “definições” e das imagens que as ilustram. Fórmula editorial
  14. 14. 1414 ž  Ao utilizar “conceitos de dicionário”, Furtado leva o espectador a acionar suas competências semióticas para entender as “instruções” contidas na mensagem. ž  É um modo de significação termo a termo, uma relação “diádica” do tipo “estímulo-resposta”, mas nesse caso temos uma relação “triádica” (ECO, 1995, p.186). ž  O significado é o resultado de um trabalho “inferencial” do espectador. ž  É uma ação ou influência que é, ou implica, uma cooperação de três sujeitos – o signo, seu objeto e seu interpretante, tal que essa influência tri-relativa de modo algum se pode resolver em ações entre pares (PEIRCE, 1983, p. 13). Fórmula editorial
  15. 15. 1515 ž  Outro exemplo de uso lúdico de termos cotidianos: ž  “Os seres humanos são animais mamíferos, bípedes que se distinguem dos outros mamíferos, como a baleia, ou bípedes, como a galinha, principalmente por duas características: o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor.” ž  “O tomate, ao contrário da baleia, da galinha, dos japoneses e dos demais seres humanos, é um vegetal. Fruto do tomateiro, o tomate passou a ser cultivado pelas suas qualidades alimentícias a partir de mil e oitocentos.” Fórmula editorial
  16. 16. 1616 ž  Ou então: ž  “Dona Anete é um bípede, mamífero, católico, apostólico, romano, possui o telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor. É, portanto, um ser humano.” ž  A frase foi alterada em relação ao roteiro original que, em vez de dizer que Dona Anete é “católica, apostólica, romana”, dizia: “não sabemos se ela é judia, mas temos quase certeza que ela não é japonesa”. Fórmula editorial
  17. 17. 1717 ž  Há o esforço, por parte de Furtado, em questionar a objetividade e a imparcialidade, defendidas pelos documentaristas tradicionais ž  A definição de dinheiro, criado na Ásia Menor no século 7º antes de Cristo, é associada ao fato de Cristo ser judeu. ž  Enquanto o locutor explica que “os judeus possuem o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor. São, portanto, seres humanos”, aparecem imagens do Holocausto. Fórmula editorial
  18. 18. 1818 ž  Esse tom irônico perdura até o momento em que a narrativa chega à Ilha das Flores. ž  A partir de então, percebe-se mais claramente o tom das críticas do autor e o por quê da sofisticada teia de relações apresentada no filme. ž  O tomate, o porco, os seres humanos e até os perfumes vendidos por dona Anete têm uma função específica no “racional” pensado pelo autor. Fórmula editorial
  19. 19. 1919 ž  Por exemplo: Tudo o que é de origem orgânica – tomate, porco, papel, madeira, galinha, ou algo que um dia teve vida – vira lixo: ž  “O lixo atrai todos os tipos de germes e bactérias que, por sua vez, causam doenças. As doenças prejudicam seriamente o bom funcionamento dos seres humanos. Outras características do lixo são o aspecto e o aroma extremamente desagradáveis. Por tudo isso, ele é levado na sua totalidade para um único lugar, bem longe, onde possa, livremente, sujar, cheirar mal e atrair doenças.” ž  “Uma cidade como Porto Alegre, habitada por mais de um milhão de seres humanos, produz cerca de quinhentas toneladas de lixo por dia.” ž  “Em Porto Alegre, um dos lugares escolhidos para que o lixo cheire mal e atraia doenças chama-se Ilha das Flores.” Fórmula editorial
  20. 20. 2020 ž  Na Ilha, Furtado retoma a ironia da cultura de dicionário, mas com imagens reais, que deixam clara a intenção de crítica [inclusive com uma trilha musical mórbida]: ž  “Ilha é uma porção de terra cercada de água por todos os lados.” ž  “Água é uma substância inodora, insípida e incolor formada por dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio.” ž  “Flores são os órgãos de reprodução das plantas, geralmente odoríferas e de cores vivas.” ž  “De flores odoríferas são extraídos perfumes, como os que do Anete trocou pelo dinheiro que trocou por tomates.” ž  “Há poucas flores na Ilha das Flores. Há, no entanto, muito lixo.” ž  “Há também muitos porcos na ilha.” Fórmula editorial
  21. 21. 2121 ž  A partir da chegada na narrativa à Ilha das Flores, o filme se torna totalmente impactante para o espectador. Ao final, mostra mendigos circulando em meio a um grande lixão. ž  Com uma lente tele-objetiva, filmando em câmera lenta, até o lixo fica bonito. “A gente vê um mendigo desdentado no meio do lixo e diz: ‘que lindo’. A lente faz isso, e o final de Ilhas das Flores é exatamente isso. Os mendigos, uma tele, uma trilha de fundo [‘O Guarani’, em solo de guitarra]. Se a gente for filmar a mesma coisa com uma lente 32, velocidade normal e sem trilha, a gente não vai emocionar ninguém.” (FURTADO, 1992) Conclusões
  22. 22. 2222 ž  Em contraposição à imagem dos catadores de lixo, poetizados pela técnica, o locutor define liberdade, citando poema de Cecília Meireles: ž  “O ser humano se diferencia dos outros animais pelo telencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por ser livre. Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, Que não há ninguém que explique E ninguém que não entenda.” ž  No roteiro original, o filme terminaria com a cena de um menino pegando um tomate em meio ao lixo e comendo. Na edição final, a cena não aparece. Talvez ficasse óbvio demais. Conclusões
  23. 23. 2323 ž  No início do filme, aparece o aviso: “Este não é um filme de ficção” ž  Nos letreiros finais, Furtado questiona o suporte mítico da superioridade do documentarista, ao usar repetidas vezes a palavra “verdade”. ž  “Este filme na verdade foi feito por..../ Na verdade, a maior parte das locações foi rodada na Ilha dos Marinheiros, a dois quilômetros da Ilha das Flores./ Os temas musicais, na verdade, foram extraídos de “O Guarani”, de Carlos Gomes./ Dona Anete na verdade é...” E conclui: “O resto é verdade” Conclusões
  24. 24. 2424 ž  O roteiro original já trazia os dados que embasavam a tese do autor, sobre o tratamento aos “seres humanos” na Ilha das Flores. Houve uma pesquisa detalhada. ž  Texto sofreu pequenas alterações na edição final - alguns trechos suprimidos, por exemplo: ž  “O papel é um material produzido a partir da celulose. São necessários 300 quilos de madeira para produzir 60 quilos de celulose. A madeira é o material do qual são compostas as árvores. As árvores são seres vivos. O papel é industrializado principalmente na forma de folhas, que servem para escrever ou embrulhar.” ž  “A História é a narração metódica dos fatos ocorridos na vida dos seres humanos. Recordar é viver.” ž  “O lixo é levado para estes lugares por caminhões. Os caminhões são veículos de carga providos de rodas.” Conclusões
  25. 25. 2525 ž  Ilha das Flores é uma paródia ao documentário do modo expositivo de representação ž  Tem o objetivo de criar empatia, através do humor, para melhor provocar e chocar o público na sequência final. ž  “Para convencer o público a participar de uma viagem por dentro de uma realidade horrível, eu precisava enganá-lo. Primeiro, tinha que seduzi-lo e depois dar a porrada.” (FURTADO, 1992). Conclusões
  26. 26. 2626 Ilha das Flores
  27. 27. 2727 Referências ECO, Umberto. Os limites da interpretação. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1995. FURTADO, Jorge. Ilha das Flores (documentário). Casa de Cultura de Porto Alegre, 1989. ______________. Um astronauta no Chipre. Porto Alegre: Artes e OfÍcios, 1992. JESUS, R. M. V. Ilha das Flores: o documentarista em primeiro plano. UFBA, 2005. Disponível em http://www.oolhodahistoria.ufba.br/artigos/ilha-das-flores-rosane-meira-vieira-de-jesus.pdf. Acesso em 02 out 2015. NICHOLS, B. Representing reality: issues and concepts in documentary. Bloomington: Indiana University Press, 1991. PEIRCE, C. Escritos Coligidos. Tradução de Armando Mora D’Oliveira e Sergio Pomerangblum. 3 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Coleção Os Pensadores).

×